16 Maio 2009



Leia o novo blog de ROBERTO SCHULTZ: desta vez apenas CINEMA, em comentários mordazes, irreverentes ou emocionados. É o BUNDA NA POLTRONA:

http://bundanapoltrona.blogspot.com
anotado por ROBERTO SCHULTZ @ 10:15 PM  

______________________________




05 Janeiro 2009




Leia mais a respeito no blog CAIXA DE CONTOS.

(http://caixadecontos.blogspot.com)

anotado por ROBERTO SCHULTZ @ 10:52 PM  

______________________________




03 Janeiro 2009








INICIANDO MUITO BEM O ANO CINEMATOGRÁFICO DE 2009 COM REFLEXOS DA INOCÊNCIA.


Um sábado de frio completamente atípico em pleno janeiro. Chuva intermitente. Isso me fez abrir um tinto Merlot que ganhei de uma amiga no fim de ano e que esperava beber apenas no inverno. Bebo, celebrando ao frio em pleno Verão. É um motivo para celebrar, no dia de hoje.

Essa chuva e o frio trazem de volta aqueles focos de chinelagem toda do Litoral Norte, que a esta hora devem estar cruzando os pedágios da freeway desesperada em direção a Porto Alegre, vindo aqui tumultuar o nosso sossêgo. O pessoal que gosta de Bruno e Marrone; Victor e Leo, Claudia Leitte (com dois "t"); Claus e Vanessa e outras coisinhas do gênero. O pessoal que se empanturra de crepe nas barraquinhas em Tramandaí; Cidreira; Capão; Imbé ou Atlântida, deve estar voltando, decepcionado: queriam ficar vermelhos, berrando na praia.

Nesta época do ano eu torço pelo sol no Litoral. Não que eu vá para lá. O que eu torço é para deixarem Porto Alegre vazia, civilizada, para nós. Ontem ao meio-dia o Shopping Praia de Belas parecia o Paraíso. Almoçamos sem barulho, sem gritaria. E, à noite, o imenso BarraShopping Sul parecia um centro de compra nos Emirados Árabes de tão tranquilo.

Hoje os shopping em Porto Alegre certamente vão estar cheios à noite.

Num sábado como hoje a grande pedida é um filme. E um filme bom. Comecei o ano assistindo a um filme excelente; foi o meu primeiro do ano. Há outros, assistidos no final de 2008, que ainda não comentei aqui, por falta de tempo. Mas começo pelo meu primeiro de 2009.

Trata-se de REFLEXOS DA INOCÊNCIA.

A vida de uma pessoa, ou os seus erros, são em muito decorrentes - às vezes - da sua inocência em determinada fase da vida. Nesse filme a inocência é focada na adolescência, na juventude. Mas pode-se ser inocente, ou ingênuo, ou despreparado, também sendo-se adulto. O que poderá ditar os rumos futuros das nossas vidas. E isso pode não ser culpa nossa, mas do que somos sem querer, do que a vida nos obrigou a ser.

O ator Daniel Craig (na foto), que é o atual James Bond (ou 007) do cinema, aqui faz um papel dramático. E é também o produtor do filme. Saiu-se muito bem.

No filme ele é o ator Joe Scott, uma estrela decadente de Hollywood. Vaidoso, prejudicado por seu modo de vida hedonista, cheio de sexo (na cena inicial do filme ele transa com duas mulheres ao mesmo tempo), drogas e celebridades.

O homem é um quarentão atraente e que tem o seu apelo, mesmo cheirando cocaína direto. Vive numa mansão à beira da praia, em Malibu.

Um dia recebe a notícia de que um velho amigo seu de infância morreu, ainda jovem, de um aneurisma. Joe jamais havia retornado para a sua cidade natal (na Inglaterra), embora sempre provendo a mãe e a família de dinheiro. E foi a partir da notícia da morte do amigo, com quem estava brigado desde que saiu da Cidade ainda jovem, é que todo o seu passado - e a sua inocência - passou a ser relembrado.

O filme se passa quase todo em flashback, com as lembranças de Joe ainda jovem, antes de ir para Hollywood. A vida com a mãe (viúva ou separada, o filme não diz); a irmã menor; uma tia lésbica. A namoradinha; os vizinhos; os amigos.

O filme é bonito, forte, emocionante. Os cenários lindíssimos ajudam. A atuação dos coadjuvantes e a música também. Joe é um menino descobrindo o amor e o amor que descobre gruda nele pelo resto da vida, como se verá. Esse amor vem na forma de duas mulheres. Ou uma mulher e uma menina, como ele.

A mulher é uma vizinha (foto da esquerda), casada e mais velha, que o inicia sexualmente. A moça não tem nenhuma vocação para ser mãe ou esposa e tem uma filha, pequena. É atormentada por não amar o marido. Por conta da obsessão e da paixão dela pelo jovem Joe, tem-se por consequência trágica uma das passagens mais dramáticas do filme, envolvendo a filha pequena dela, numa cena na praia. Estar envolvido num contexto de paixão e de tragédia, para Joe, é o fator determinante para que, quase um menino, vá embora de casa e se torne o ator de Hollywood.

Já a menina (foto da direita) é uma colega da mesma idade, a quem Joe ama e que também o ama. Os dois se trancam na casa dela e ouvem música, se vestem com roupas que imitam os roqueiros da época. Essa menina, no futuro, é a esposa do amigo de Joe que morreu.

Ele volta para a sua cidade, com a morte do amigo, já ator consagrado (e também decadente), para buscar de volta a sua inocência.

O reencontro com tudo isso mostra que é difícil corrigir os erros do passado. E que eles não são erros deliberados, mas que acontecem por conta justamente da inocência que se tem ao errar.

Também mostra, esse reencontro, que o amor não espera por ninguém. Ele segue em frente, o seu destino, como tem de ser. E que se tire o melhor proveito que se possa disso, construindo uma vida melhor dali em frente.

Isso tudo faz de REFLEXOS DA INOCÊNCIA um filme que vale a pena ser visto, para iniciar o ano de 2009.
anotado por ROBERTO SCHULTZ @ 3:13 PM  

______________________________




01 Janeiro 2009








ANO NOVO EM TRÊS CIDADES DIFERENTES DO BRASIL: "DESARMANDO A BOMBA" EM BRASÍLIA, NOS ÚLTIMOS INSTANTES DE 2008.


A Cidade de Porto Alegre está vazia desde ontem, o último dia do ano. Começou a temporada preferida dos gaúchos óbvios: vai todo mundo "pras praia" (assim mesmo, com erro de concordância). As praias gaúchas são todas uma bosta, mas alguns ainda acreditam que estão indo para o Caribe. E se vangloriam disso. Seja praias consideradas "de pobre" ou praias "de rico", aqui no Estado todas elas têm a água marrom e gelada. O esgoto corre na areia. As ruas das cidades praianas, nessa época, ficam entupidas de gente bagaceira e gritona. Filas, empurra-empurra. Cachorros nojentos na areia. Ouve-se funk ou coisa pior, em volume alto, seja em carros velhos ou em caminhonetes importadas. Come-se mal, em restaurantes de quinta categoria que cobram muito. Homens e mulheres vulgares desfilam bronzeados; às vezes MUITO bronzeados ou simplesmente vermelhos como tomates, como se aquilo fosse a coisa mais original do mundo. Sentem-se lindos e diferentes, quando todo mundo está exatamente igual.


A originalidade e a inteligência, neste Estado, nunca foram coisas muito valorizadas.

O gaúcho considera-se, em regra, uma "elite", especialmente quando se referem ao "resto do País". Adoram dizer isso. O legal é que boa parte dessa horda de gritões; a tal "elite", vai "pras praia" rigorosamente de favor. Isso mesmo. Pouca gente se hospeda num dos vários hotéis (a grande maioria ruins, aliás) ou aluga uma casa: simplesmente vai para a casa dos parentes ou amigos, encher o saco. Depois conta para todo mundo que "veraneia em Capão" (Capão da Canoa, uma das praias gaúchas), quando na verdade "se encosta" na casa de alguém.

Eu terminei o ano de forma absolutamente inusitada e, por pouco, não o fiz longe de casa, em outro Estado. Este último dia do ano, o dia 31 de dezembro, foi um reflexo profissional do ano de 2008 para mim e, quem sabe, do que virá em 2009.

Ocorre que ontem, 31 de dezembro, eu estive num único dia em três Estados, incluindo o Rio Grande do Sul: Brasília, São Paulo e Porto Alegre.

A profissão de advogado me realiza. Gosto do que faço. É como escrever literatura. Apenas lamento que a Literatura não me reconheça e nem me dê alegrias. A profissão de advogado me reconhece e me traz alegrias. Mas me traz, claro, alguma adrenalina. Muitas vezes os destinos das pessoas, ou das suas empresas (o que significa o sustento das mesmas pessoas), são postos em nossas mãos.

Foi numa dessas ocasiões que um cliente meu, uma empresa bem sucedida e próspera, diante de um problema anunciado há vários meses, sofreu o revés (rigorosamente calculado pelo seu oponente) de ver essa "bomba" estourar nos últimos dias do ano. Ou ele, o cliente, tomava determinada medida ou sofreria uma penalidade grave que poderia significar uma quebra, embora se tratando de uma empresa financeiramente muito bem estabilizada. A medida impediria que a empresa faturasse novos negócios.

Na verdade, sempre achei legal, nos filmes, aquelas situações em que chamavam um cara para resolver uma situação de alto risco. O cara desarmava uma bomba; ou desmontava uma operação criminosa; ou salvava o país da guerra pela diplomacia; ou resgatava os pobres reféns das mãos dos terroristas; ou descobria o programa de computador que causava problemas. O sujeito em questão, geralmente meio simplório (assim como eu, que para determinadas situações sou um completo idiota), vivia num sítio, cultivando - digamos - orquídeas, e de repente os caras do Governo, no filme, viajavam horas numa estrada de chão batido para buscarem o cara: "você precisa nos salvar, Steve". E o Steve(ou nome parecido com isso) ia. E salvava a pátria. E depois voltava para o sítio, com seu chapéu.

A vida real, e o Poder Judiciário no Brasil, não são tão glamourosos quanto os filmes, mas se estou aqui, agora, enquanto escrevo, como aquele cara simplório do sítio nos filmes, no meu modesto apartamento no Bairro Teresópolis, em Porto Alegre, fumando um charuto cubano Guantanamera, ouvindo o tango moderno do Bajofondo e bebendo um espumante caro que ganhei no avião (depois eu conto essa história), é porque dá para fazer algo parecido com o que se vê nos filmes, se você for esforçado; um pouquinho experiente; gostar do que faz e for meio teimoso.

Fui chamado às pressas no final da tarde do dia 29 de dezembro para "desarmar uma bomba" em Brasília até, no máximo, o dia 30, terça-feira. Trabalhei a noite inteira, na empresa do cliente, até às 5:40h da manhã de terça. Fiz a barba na própria empresa. Enquanto todos dormiam o sono dos justos, esperando pela virada do ano, eu trabalhava e corria, madrugada afora. Atravessei a cidade deserta, de madrugada, indo ao aeroporto, a mais ou menos 100 km por hora. Nessa hora é bom ter um carro de motor 2.0 que, não por acaso, é um dos mais roubados pelos assaltantes de bancos, o que torna o seguro ainda mais caro. Adoro dirigir em alta velocidade, ainda morro disso. Às 7h da mesma manhã, depois de uma rápida passada em casa e ainda sem dormir, embarquei num avião direto rumo a Brasília, onde desembarquei por volta de 09:30h.

Foi um longo caminho, que não cabe descrever aqui. O Judiciário nesta época está em recesso e só as medidas verdadeiramente URGENTES são apreciadas pelos juízes. Numa fila de cerca de 40 pessoas (advogados e outros), consegui furar o bloqueio, com alguma habilidade, por ser um sujeito popular. Fazer amizade com porteiros; motoristas de táxi e subalternos tem as suas vantagens. Ser gaúcho, parece, também tem algumas, embora aqui no Estado eu ache isso uma grande merda. Em algumas horas eu preferia ser baiano, pernambucano ou paulista.

O contato com advogados; queridos colegas de profissão do Brasil inteiro, e que - como eu - esperavam na fila em Brasília, na Justiça Federal, pode ser comovente e enriquecedor. Já vivi várias situações dessas, nesses meus 19 anos de profissão, completados no próximo dia 09 de janeiro. 19 anos só de carteira da OAB, já que trabalho nisso desde estudante. Lá se vão uns 26 anos.

A advogada que saiu de Manaus, no Amazonas, correndo e deixando o marido e o filho de 5 anos, para conseguir uma medida urgente. Ou o advogado que saiu, às pressas, do Rio de Janeiro para liberar uma carga presa no porto da Cidade Maravilhosa. A advogada da Paraíba. Os dois advogados de Brasília mesmo.

Uma juíza jovem e alegre, no plantão. No máximo 28 anos de idade;conversando com os advogados direto na sala de espera. Simples. O marido a esperava, com a filha de colo, na saída do trabalho, às 19h, quando deixei a Justiça Federal de Brasília. Eu estava lá. Eu sempre estou lá, quando as coisas acontecem. Queria ser escritor, porque as boas histórias procuram os bons escritores. Eu sou um escritor medíocre, cujo próprio Estado, o valoroso e bombachudo Rio Grande do Sul, não reconhece e teima em não reconhecer. Queria ter nascido na Bahia, ou em Minas, ou em Pernambuco, ou no Ceará. Estaria bem, num desses Estados, como escritor. Não aqui. Aqui sou MERDA.

Né, Altair Martins? Né, Luis Dill? Né, David Oscar Vaz, de São Paulo? Né, Rosel Soares, da Bahia?

Desarmei a bomba, claro, lá em Brasília.

No dia de hoje, primeiro de janeiro, clientes bem sucedidos descansam mais tranquilos no Litoral Norte do Rio Grande do Sul, por causa da bomba desarmada. São pessoas bem situadas, sim. Mas honradas, porque começaram de baixo. Foram muito pobres. Eu cumpri a minha parte e desarmei a bomba. A luta, claro, continua. O desarmamento foi provisório. Mas garanti a eles um Ano Novo feliz. E fico feliz por isso, realizado como advogado. Foi simbólico, de um ano cheio de desarmamentos de bombas bem sucedidos.

Por pouco, não fiquei em Brasília, na virada do ano, sozinho, sem a família. Havia essa possibilidade, se a Juíza não despachasse a minha urgência. Eu ficaria lá até que obtivesse um resultado. Mas ela despachou.

Saí de Brasília às 13:10 do dia 31 de dezembro de 2008. O último dia do ano. Passeei de táxi pelo Palácio do Planalto, a Esplanada dos Ministérios (na foto), o Supremo Tribunal Federal. Fui ao Conselho Nacional de Justiça, ver outro assunto. O espetáculo de fogos de artifício e de música estava armado na Esplanada, onde o Capital Inicial fez, neste ano que passou, o seu show para um milhão de pessoas, há alguns meses. Voltei para o hotel Mercur, Setor Hoteleiro, onde já me hospedei algumas vezes, vista lindíssima da cobertura, com piscina e tudo. Fui lá na piscina, dar uma olhada. Dormi uns quarenta minutos.

Voei para São Paulo. Ficaria duas longas horas no Aeroporto de Congonhas, esperando o embarque de volta para Porto Alegre. Resolvi ir ao Shopping Ibirapuera. E o ano de 2008, ali, acabando. Peguei um táxi. No Shopping vazio, as pessoas encerrando o ano. Passeei, sozinho, no Shopping onde passei, também sozinho, o Dia dos Namorados, em junho.

Voltei para o Aeroporto. Mais passeio. Comprei um livro de Marcelo Rubens Paiva, o mais recente desse escritor, chamado A segunda vez que te conheci. A vendedora da livraria procurou o meu SEGREDO E FIM no sistema. "Tinha, mas foram todos vendidos". Sou eu, o Autor, eu lhe disse. Ela ficou eufórica. "Não é possível!", falou, rindo. Confirmei, "sou eu". E o ano acabando, vergonhosamente para o escritor obscuro.

Embarque. Avião quase vazio, rumo a Porto Alegre. Sortearam dois espumantes, dentre as poltronas do avião. O primeiro, para a poltrona 5F. Um cara ganhou. A segunda, para a poltrona 9F, EU ganhei. Nunca ganhei porra nenhuma, nem em rifa de igreja. Mas no último dia do ano, dentro de um avião que sobrevoava Joinville (o piloto anunciou), ganhei um espumante Mumm. Bateram palmas. Bom sinal, terminei bem o ano de 2008. Acabei de beber, aqui, escrevendo,toda a garrafa (não sozinho, óbvio, com a Claudia e até a Lívia - para quem JAMAIS demos bebida de alcool - bebeu um golinho).

Quando o avião descia vi, do alto, na ponta do Gasômetro, a chaminé da Usina, de longe. Solitária na Beira do Guaiba, parecendo prestes a cair dentro dele. Senti ternura pela Usina do Gasômetro. Aquela enorme chaminé única, lá, parada, é uma espécie de monumento à solidão, contemplando e guardando o Guaiba. É para lá que correm, nas noites de Ano Novo ou nas tardes de sol, os solitários e os abandonados. Gosto da Usina, tenho uma história de afeto por lá. É como se o meu nome estivesse gravado nela.

Na volta, a Cidade vazia. Queria um banho e cama. Dormi um pouco.

Resolvemos ir até o Gasômetro, ver os fogos(na foto). Acabou virando uma tradição da Família. O povão estava todo lá. A Imprensa diz que eram 70 mil pessoas. É um "povão" diferente daquelas criaturas bestas que vão à praia no Litoral Norte. É o "povão" mesmo. No Litoral são os metidos a bestas, os burros. Na Usina é a diversidade; cultural; étnica; sexual; social; econômica. Estavam lá os ricos; os muito pobres; os bêbados. Os gay, felizes, se beijando acintosamente. Os sem opção; os que não foram à praia; os que queriam comemorar a virada do ano. Todos nós felizes, cada qual à sua maneira. Estamos vivos.

O ano vira e tudo continua a mesma coisa. A gente é quem faz o ano. O resto é bobagem.

Na volta do Gasômetro, um filme. O primeiro filme do ano. Chama-se REFLEXOS DA INOCÊNCIA, com o Daniel Craig (o novo James Bond). Um filme belíssimo, depois comento aqui. Belíssimo, melhor escolha impossível. Para inaugurar os nossos novos brinquedos, uma TV de LCD grandona e um home-theater com som de 800 w RMS, tudo da Sony, que resolvemos nos dar de presente de Natal. O Ano Novo começou mas é tudo a mesma coisa. Não podemos, ainda assim, nos queixar.
anotado por ROBERTO SCHULTZ @ 1:21 PM  

______________________________




23 Dezembro 2008





SOBRE TOALHAS JOGADAS NO RINGUE.


Na tevê, na Globo, está passando neste instante o filme O HOMEM QUE COPIAVA, do Jorge Furtado, com o Lázaro Ramos. Já vi o filme, mas sempre vale a pena dar uma espiada de novo. É uma combinação que deu certo. Os gaúchos, tão ufanistas desse gauchismo, buscaram um baiano (o Lázaro), para fazer o papel de um gaúcho de Porto Alegre, no filme todo rodado aqui, na região da Avenida Presidente Roosevelt, no Bairro Navegantes. Lázaro está magnífico no filme. Para mim é um dos maiores atores brasileiros, senão o maior da nova geração.

Meu livro SEGREDO E FIM tem um personagem, chamado Antonio Pilar, que eu imaginei sendo interpretado pelo Lázaro. Escrevi um mail para ele uma vez, que jamais me respondeu. Dei o livro pessoalmente, neste ano, também para o Jorge Furtado. Que também não deu a mínima para o meu livro.

Muita gente usa a expressão "jogar a toalha" quando quer desistir de alguma coisa e a usa sem fazer a menor idéia do que ela signifique ou de onde ela venha. A expressão vem do boxe. O treinador do pugilista (lutador), quando vê que esse último está apanhando muito e corre risco de vida, ele (o treinador) joga a toalha sobre o ringue o que significa: desistimos. Quem desistiu não foi o lutador que, a essa altura, não está em condições de decidir nada. Foi o treinador quem desistiu por ele.

O encerramento do ano e esse climinha besta de final de dezembro levam a gente a pensar muito sobre as coisas por onde conduzimos a vida da gente.

A expressão "jogar a toalha" tem me rondado, há alguns meses, em se tratando dessa minha dolorida e ingrata opção pela Literatura. A verdade é que escrever não se trata de uma OPÇÃO. Escrevo porque não consigo não escrever. Sei que isso é um chavão ("escrevo porque não consigo não escrever"), mas é a pura verdade. Basta eu sentir-me inquieto, ou indignado, ou alegre, ou infeliz e o primeiro impulso que me vêm à mente é: "preciso escrever alguma coisa". Apesar da absoluta INUTILIDADE que esse gesto tem representado na minha vida, quando penso em comunicar alguma coisa não é falando que eu faço isso, mas escrevendo. Sinto vontade de contar uma história, inventar personagens, fazer umas vidinhas alheias. Têm sido, essas vidinhas, tão bestas ou mal acabadas, que ninguém dá a mínima importância a elas. Mesmo eu VENDO, por aí, tanta porcaria bem pior sendo escrita e considerada boa ou magnífica. Mesmo eu pedindo, humildemente, AJUDA, e não a conseguindo.

Quer um exemplo? Mandei um livro para a Martha Medeiros, entre outros que mandei a várias pessoas ditas "influentes" ou que, de alguma forma, poderiam opinar sobre o meu trabalho ou me dar uma oportunidade. Perguntei a ela se havia RECEBIDO o meu livro. Nem isso, ela me respondeu. Tudo bem, ela é ocupada e escritora de sucesso. No blog dela, hoje, ela conta sobre o livro (de iniciante, primeiro livro) que leu de uma médica gaúcha, moradora no Rio de Janeiro. Ao final do comentário diz: leiam, é muito bom. E eu não sei SEQUER se ela RECEBEU o meu livro, nem isso ela me respondeu. A Martha foi apenas um exemplo. Assim como ela, dezenas de livros SEGREDO E FIM jogados ao vento, sem resposta. Quer outro? O jornalista Carlos André Moreira, da Zero Hora. É o cara que comenta livros, por lá. Depois de um "bate-boca" (de bom nível) por mail entre nós, em que ele negou o fato (alegado e mantido por mim) de que a ZH favorece sempre os mesmos ele me pediu: "mande-me o seu livro, será lido com isenção e sem rancores". Mandei. Respondeu? Não. Criticou? Nada. Na semana passada saiu uma resenha dele, no Jornal, falando sobre os "livros do ano", entre eles os livros dos meus amigos Luis Dill e Altair Martins que eu reclamara ao próprio Carlos André que não recebiam muito espaço na ZH. É foda. E gosto de escrever. Deve ser alguma coisa que puseram na minha mamadeira, quando eu era pequeno. Não sendo a Literatura uma opção, para manter a coerência com essa minha completa falta de opções TAMBÉM não estão me dando a opção de ser lido pelas pessoas. Estou me cansando.

Estão jogando a toalha por mim. E eu estou concordando com a toalha jogada. Acho que não nasci para ser reconhecido por isso, apesar de gostar de escrever. O escritor Raduan Nassar, que desistiu de escrever há mais de trinta anos, não me sai da cabeça. Sobre essa desistência de Nassar, Pedro Maciel escreveu:

Cada um está só no coração da terra/Transpassado por um raio de sol/E de repente é noite (Quasimodo)

Raduan Nassar, autor de "Lavoura Arcaica", "Um copo de cólera" e "Menina a caminho" afastou-se definitivamente da literatura. "Desisti de escrever porque há um excesso de verdade no mundo” (Otto Rank). Talvez essa afirmação esclareça o motivo do afastamento de Raduan Nassar da literatura.


Na luta de boxe, no sábado passado, entre o russo Valuev e o americano Holyfield (ambos na foto), ninguém jogou a toalha. Assisti a cada um dos 12 round da luta, transmitida ao vivo pela Band; em alguns desses round aos gritos na frente da TV. O russo, que era o favorito, de fato ganhou. Mas Holyfield lutou inegavelmente melhor. E a vitória do russo foi por pontos, não houve o esperado nocaute. Ninguém beijou a lona.

Holyfield abusou do estilo americano de boxear, "dançando" o tempo todo (apesar dos seus 46 anos, contra os 35 do russo) em volta do grandão, com admirável fôlego. Os americanos lutam assim, gingando em torno do adversário, para derrubá-lo no cansaço. Acertou mais jab no russo do que o contrário. Mas perdeu. Como a luta foi decidida por pontos (ou seja, ninguém derrubou ninguém), acreditei até que Holyfield fosse o vencedor. Eu e o resto do mundo que acompanhava a luta, com os locutores brasileiros da Band se mostrando indignadíssimos. Locutores brasileiros, pelo que vejo em outros esportes (sobretudo o futebol), sempre "tomam partido". Quando o resultado saiu, a surpresa: Holyfield não foi o vencedor. Foi o russo.

Até nisso, porém, pode haver enganos aos olhos dos inocentes espectadores. O lutador americano, financeiramente falido e devendo MILHÕES de dólares ao Fisco dos Estados Unidos e para suas SETE ex-mulheres (pensão), pode ter entrado na luta por US$ 750 mil já sabendo que ia perder. E tendo sido pago para perder.

E o russo (que foi vaiado, mesmo sendo o vencedor) pode ter lutado sabendo que ia ganhar de qualquer maneira. Para quem não acompanha as mudanças ocorridas no mundo, a Rússia pós-União Soviética é uma terra de bilionários riquíssimos que querem reerguer o orgulho nacional injetando milhões de dólares nos esportes que agradam à multidão, incluindo aí o futebol e o boxe. Quem garante que eles não investiram milhões nessa vitória do russo para enaltecer à Rússia (e dar uma "canelada", de leve, num grande e veterano esportista dos Estados Unidos)?

É preciso entender que quase nada é o que parece ser. No boxe, na Literatura ou na vida. Quem parece estar vencendo, pode estar perdendo. E iludindo a si mesmo, acreditando-se um vencedor. Quem insiste numa luta que já sabe perdida, só adia o sofrimento de sabê-lo. As vitórias e as derrotas são sempre parciais, principalmente aquelas que aparecem aos olhos de todos.

A plenitude delas, só no seu mais profundo íntimo, apenas os lutadores é que conhecem.
anotado por ROBERTO SCHULTZ @ 1:07 AM  

______________________________




20 Dezembro 2008






UMA LUTA DE BOXE DE VERDADE E AS LUTAS DE JIU-JITSU DE MENTIRA NUM FILME AMERICANO COM DESPERDICIO DE TALENTO BRASILEIRO: O CINTURÃO VERMELHO, UM DOS 100 PIORES FILMES DE 2008 SEGUNDO O JORNAL TIMES.


Hoje à noite, às 23:40h de Zurique (na Suíça) e às 19:40 em Brasília, acontecerá uma luta de boxe em que tudo conspira para que haja um massacre. O que torna a luta interessante, porém, para quem gosta de boxe como eu, é a possibilidade da “zebra”. Ou seja, a possibilidade desse massacre não acontecer.

Valuev (na foto), o russo, é o atual campeão mundial dos pesos pesados pela Associação Mundial de Boxe (AMB). Ele tem inacreditáveis 2,13m de altura e pesa 145kg.

Seu oponente é o americano Evander Holyfield (também na foto), com 46 anos de idade (11 a mais do que o russo, que tem 35), 24 centímetros a menos de altura e cerca de CINQUENTA QUILOS a menos do que o russo. Pra completar a meleca, Holyfield foi derrotado oito vezes a mais do que o russo que, em 50 combates, teve apenas uma derrota.

Tudo aponta, portanto, para a destruição de Holyfield por Valuev, claro. Nas bolsas de apostas, o resultado dando vitória ao russo é considerado certo, tanto que a aposta no americano, em si, não vai pagar muito ao respectivo apostador. Já o contrário, a vitória de Holyfield, completamente inesperada, vai remunerar bem o apostador que apostar nessa “zebra”.

Se você comparar os dois, apenas pelo tamanho (veja acima), fica apavorado com a possibilidade do que pode acontecer por lá. No entanto, se comparar o físico dos dois verá que Holyfield é fisicamente mais preparado. Tem mais idade, é certo. Mas tem mais músculos aparentes, o que demonstra boa forma e treinamento rigoroso. Perto dele, o gigante russo é apenas grande, mas não é musculoso.

É como pegar um motorista de caminhão grandão e forte (mas sem agilidade) para lutar com um lutador de boxe preparado. Holyfield disse que não teme a diferença de idade (ele não se refere, porém, ao tamanho do oponente), já que – segundo ele – a cabeça de Valuev estará lá exatamente onde ele precisa para acertá-la.

Tem sentido. Se Holyfield conseguir acertar um jab equivalente a 120 kg (o soco de alguns pugilistas atinge esse peso) no queixo ou no nariz do russo, já era. É uma luta emocionante. Espero que passe em algum canal. Até agora não há previsão.

Falando em lutas, um filme que trata do assunto, embora não sejam lutas de boxe: O CINTURÃO VERMELHO. Já adianto que ele foi considerado um dos 100 PIORES do ano de 2008 pelo jornal inglês Times. Concordo com o jornal, pois o filme é uma bosta.

O mais decepcionante é que quando estavam filmando fizeram todo um mistério aqui na mídia brasileira em torno dele, já que se trata de um filme do elogiado Diretor David Mamet. Além disso, por ter no elenco DOIS brasileiros de peso: Rodrigo Santoro e Alice Braga. E não apenas eles, se vê depois, mas há também alguns outros brasileiros no elenco e até outros que não são atores de verdade e sim lutadores. Alguns falando em português. A bandeira brasileira, no uniforme dos lutadores, aparece em vários momentos do filme.

O filme trata de jiu-jitsu e a família (brasileira) Gracie, do Rio de Janeiro, é há anos uma referência mundial nesse esporte (de verdade, na vida real). Um dos Gracie trabalhou como consultor, treinando os atores. O jiu-jitsu brasileiro é, para quem não sabe, um dos melhores do mundo e os lutadores de outros países vêm aqui para aprender.

O filme O CINTURÃO VERMELHO conta a história de Mike Terry (o ator Chiwetel Ejiofor, que é um bom ator) que é um professor de jiu-jitsu idealista e que se realiza dando aulas, evitando as competições, preferindo cuidar de uma academia que só dá prejuízos a ele e à esposa, Sondra (Alice Braga). Sondra é brasileira (poderia ser "Sandra", né?) e irmã de dois sujeitos envolvidos com o mundo das lutas. Um deles é o empresário Bruno Silva (feito pelo Rodrigo Santoro) e o outro é Ricardo Silva (John Machado, lutador de jiu-jitsu na vida real).

Lembrando sempre que é um filme americano, onde as pessoas falam inglês, as participações brasileiras - algumas vezes em português - não ajudam em nada a melhorar a coisa. Alice Braga faz uma boa esposa para o americano ator Chiwetel Ejiofor, mas a trama do filme é fraca, estereotipada, para americano gostar. Ricardo Santoro faz um suposto "empresário inescrupuloso" que não convenceria nem numa novela das seis da Globo. Os brasileiros estão falsos na trama, parecendo aqueles cubanos de filme americano. Ou mexicanos. Para os americanos, parece, latino é "tudo a mesma coisa".

Depois, mesmo no universo das lutas as coisas soam falsas. Há o "velho mestre japonês" e até um ator americano famoso e enrolado que trabalha em filmes de guerra, feito pelo Tim Allen, um ator que aqui no Brasil nunca foi muito expressivo, embora nos extra do filme eles se refiram a ele como se fosse uma grande estrela. Também se referem ao David Mamet como se fosse um diretor exigente e que só faz filmes bons com atores bem dirigidos.

Desperdiçaram o talento do Rodrigo Santoro e da Alice Braga na porcaria de um filminho comercial sem qualquer valor artístico. Não assista. Na minha opinião, é muito ruim.
anotado por ROBERTO SCHULTZ @ 3:29 PM  

______________________________




14 Dezembro 2008






ABOBRINHAS DE UM DOMINGO A NOITE: O ÚLTIMO CAPÍTULO DE ALICE; MAIS UM CONTO NO BLOG CAIXA DE CONTOS E A MAIOR LEITURA COLETIVA DE UM ROMANCE DE QUE SE TEM NOTÍCIA NO MUNDO: MIL CASMURROS.

Escrevo no domingo à noite, após o último episódio da série ALICE, do HBO (Canal 71 da Net), com a atriz Andréia Horta (na foto). Não perdi nenhum capítulo, foram treze. Tratamento de cinema e uma trama bem calcada na realidade. Ninguém se dá bem o tempo todo, na série. Sem ranços de novela. No final, uma dúvida de ALICE em relação à mãe que, em tese, teria morrido quando ela era pequena: a mãe de fato morreu ou apenas desapareceu sem deixar rastros? Quanta gente, na realidade, passa por isso na vida? Não sabe se um ente querido está morto porque jamais encontrou o corpo. No caso de ALICE era a mãe. Mas na vida real pode ser o marido; a mulher; o irmão; o filho; a namorada; o namorado. No caso das perdas de amor entre as pessoas, há ainda mais uma variável: o que é feito daquela vida que, por algum tempo, andou junto da sua, tão fortemente? Que vida vive essa pessoa, hoje?

Falando em mortes e romances ontem, sábado, entrou pela minha janela, junto com um ventinho bom, uma história que não é minha e nem de alguém que eu conheça. A inspiração simplesmente me chegou, assim, inteira. Gosto dessa idéia de perceber as coisas; os movimentos da natureza e da cidade. Há certas nuances, e principalmente delicadezas, em algumas coisas do mundo que passam despercebidas da maioria das pessoas. As pessoas andam em estado muito embrutecido, não prestam atenção às coisas simples e belas da vida. Então eu, que também escrevo brutalidades e asperezas, de vez em quando gosto de "pintar quadros" e desenhar cenas poéticas e delicadas com as palavras. Fiz isso em alguns capítulos de SEGREDO E FIM. Pena que ninguém tenha prestado muita atenção ao meu livro. O fato é que ontem, sábado, me veio à mente a história de uma mulher. Não conheço aquela mulher; não faço a menor idéia de quem ela seja. Já me disseram que admiram a possibilidade de um HOMEM escrever como se fosse uma mulher. Pois essa mulher chegou e prestou atenção ao que estava no seu entorno. Até que chegou um homem.

Isso tudo virou um conto, chamado PERCEPÇÃO, que escrevi em mais ou menos meia hora. Escrevi de um soco, sem pensar. Ele está lá na minha CAIXA DE CONTOS (http://caixadecontos.blogspot.com/), para quem se interessar por ele.

Para encerrar o domingo, uma recomendação. A Rede Globo criou uma leitura coletiva do Romance Dom Casmurro, de Machado de Assis. Abriu um site e dividiu o texto do Romance em MIL TRECHOS. Cada trecho poderia ter sua leitura gravada (com uma web cam) pelo interessado que participaria, somando-se todos os trechos, dessa leitura. Uma homenagem pelos CEM ANOS do célebre Escritor brasileiro. E cedeu alguns trechos para convidados (artistas; pessoas célebres; intelectuais) e permitiu que gente tão anônima quanto eu ou você gravássemos a nossa participação.

Eu trabalhei nesse Projeto da Rede Globo como advogado, não como escritor. A participação de pessoas num Projeto disponibilizado pela Internet envolve questões jurídicas e eu fui o advogado contratado pela Agência que desenvolveu o site para tratar dessas questões.

As pessoas da Agência me sugeriram que eu também gravasse um dos trechos. Fiquei sabendo, obviamente, da existência do site antes do que todo mundo, embora profissionalmente eu estivesse obrigado a manter sigilo sobre ele até que fosse para o ar.

O site se chama MIL CASMURROS e finalmente foi para o ar. Mas eu, por falta de tempo e por excesso de trabalho, como sempre, fui deixando a minha gravação para depois. E quando, finalmente, consegui um tempo para escolher um trecho de Dom Casmurro e gravá-lo, descobri que todos os trechos já tinham sido gravados.

Não importa. O resultado ficou bonito. Confira em:




Não gravei trecho algum, não me registrei na leitura do Romance. Perdi uma boa oportunidade. Mas estou presente, com o meu texto JURÍDICO, naquele bonito (e inédito) web site com a maior leitura coletiva de um Romance de que se tem notícia, no Mundo, creio eu.

Leia.
anotado por ROBERTO SCHULTZ @ 11:13 PM  

______________________________





"MEMÓRIAS ARQUIVADAS"



<BODY>